Colombo, 23 de dezembro de 2025
“A política é a arte do possível”, ensinou Otto von Bismarck, mas o direito é a arte do necessário. Quando a política se divorcia da legalidade, o resultado não é governabilidade, mas arbitrariedade. A recente decisão da Justiça Eleitoral que reconheceu a fraude à cota de gênero nas eleições proporcionais em Colombo não deve ser lida como um mero ajuste técnico do sistema, mas como um marco pedagógico da democracia local, cujos efeitos ultrapassam o retorno de nomes específicos à Câmara Municipal e alcançam o próprio modo como o poder passa a se organizar no município.
A anulação dos votos de uma chapa inteira, por fraude estrutural ao sistema de representação feminina, revela uma patologia recorrente da política brasileira: o uso instrumental da lei como obstáculo a ser contornado, e não como pacto civilizatório a ser respeitado. Desde Raymundo Faoro, sabemos que o patrimonialismo brasileiro sempre tentou subordinar as instituições aos interesses circunstanciais dos grupos dominantes. A decisão judicial, neste caso, opera no sentido oposto: reafirma que a regra não é negociável.
É nesse ambiente de recomposição institucional que se insere o retorno do professor Roger à Câmara Municipal de Colombo. Sua recondução não é fruto de arranjos palacianos, mas consequência direta do restabelecimento da vontade popular, distorcida por uma fraude que maculou o processo eleitoral. Como ensinava Hans Kelsen, a legitimidade democrática não reside apenas no resultado, mas na pureza do procedimento. Sem procedimento legítimo, o resultado é viciado.
A recomposição do Legislativo municipal altera, de forma silenciosa porém profunda, a arquitetura do poder local. Câmaras Municipais não são órgãos decorativos; são, na concepção de Montesquieu, elementos essenciais do sistema de freios e contrapesos. Um Legislativo fragilizado tende a produzir Executivos hipertrofiados. Um Legislativo fortalecido impõe limites, exige transparência e obriga o governo a justificar seus atos perante a sociedade.
Nesse novo cenário, é inevitável que o Executivo Municipal seja compelido a reavaliar sua relação com a Câmara e, por extensão, com o próprio secretariado. Secretarias deixam de ser meros espaços de acomodação política e passam a ser alvos de fiscalização mais rigorosa, debates públicos mais qualificados e cobranças mais técnicas. Educação, saúde, assistência social e cultura voltam ao centro da arena política, como deve ocorrer em qualquer democracia substantiva.
A presença do professor Roger nesse contexto não é casual, tampouco simbólica apenas. Sua trajetória pública se construiu na intersecção entre educação e política, dois campos que, como lembrava Paulo Freire, jamais são neutros. Professor e diretor de escola antes de ser vereador, Roger carrega para o Parlamento a experiência concreta da base social, o conhecimento da realidade educacional e a compreensão de que políticas públicas não se fazem apenas em gabinetes climatizados.
Entre 2020 e 2024, sua atuação parlamentar foi marcada por uma postura dialógica, característica rara em tempos de radicalização e superficialidade discursiva. Hannah Arendt já advertia que a crise da política começa quando o espaço público deixa de ser lugar de debate racional e se transforma em arena de slogans. Roger, ao contrário, sempre buscou o convencimento pelo argumento, não pela retórica vazia.
Para os professores da rede municipal, seu retorno representa mais do que afinidade corporativa. Representa a possibilidade concreta de que as pautas educacionais sejam tratadas com densidade técnica e sensibilidade humana. Ele conhece o chão da escola, a sobrecarga docente, a defasagem estrutural e a ausência histórica de planejamento educacional de longo prazo. Em um país onde a educação frequentemente é reduzida a discurso eleitoral, essa vivência faz diferença.
Ao afirmar: “Volto à Câmara Municipal com o coração cheio de gratidão e o senso de responsabilidade ainda maior. Esse retorno não é apenas meu, é de cada eleitor e eleitora que acreditou, confiou e não desistiu. A vontade do povo foi respeitada, e isso fortalece a democracia”, o vereador traduz, em linguagem simples, um princípio complexo: o mandato pertence ao povo, não ao eleito. Jean-Jacques Rousseau já sustentava que a soberania é inalienável; o representante apenas a exerce temporariamente.
O episódio vivido por Colombo dialoga com momentos decisivos da história política nacional. Da redemocratização pós-1985 à consolidação da Constituição de 1988, aprendemos que a democracia brasileira avança quando as instituições funcionam, e retrocede quando são instrumentalizadas. A Justiça Eleitoral, ao agir, não interferiu na política; protegeu-a de si mesma.
Este novo ciclo político exige maturidade institucional. Exige que vereadores compreendam seu papel fiscalizador, que secretários entendam que a gestão pública não é território imune ao escrutínio, e que o Executivo reconheça que governar não é mandar, mas coordenar interesses sob a égide da lei. Como ensinava Norberto Bobbio, a democracia é o regime da publicidade dos atos e da responsabilidade dos agentes públicos.
Esta reportagem do Grupo Sadraque Notícias será veiculada nos canais de comunicação e redes sociais do Portal Colombense, Portal Guaraituba, Radar Metropolitano CWB, Buzão Colombo e no site www.sadraquenoticias.com.br, reafirmando nosso compromisso com um jornalismo que não se limita a narrar fatos, mas os interpreta à luz da história, da teoria política e do interesse público.
O retorno do professor Roger à Câmara não encerra um capítulo; inaugura uma nova etapa. A política local, como a história, não perdoa a superficialidade. E Colombo, neste momento, é chamada a escolher entre a mediocridade institucional e a maturidade democrática.
Professor e Jornalista
Sadraque Rodrigues


